24 de fev de 2014

Trote. (parte 2)

Antes de ler este texto, tenha certeza que leu a primeira parte, Trote.


Caro amigo...



O trote aconteceu.

E não foi nada legal.
Eu estava chegando no colégio quando vi um grupo de pessoas amontoadas na porta do banheiro masculino do corredor térreo. Eu corri para ver o que estava acontecendo, afinal, quem não gosta de um auê? Eu gosto. Você não? 
Enfim.
Me esquivei de cotovelos, ombros, pés e finalmente cheguei no meio da roda de curiosos. Naquele momento a bagunça pareceu perder a graça. Me deparei com os garotos do oitavo ano enfiando a cabeça do Charles (o garoto novo, como você deve lembrar) em uma das pias que transbordava água.
Charles parecia apreensivo, e batia os braços e pernas tentando livrar-se dos punhos fortes dos idiotas. Acho que estava se afogando.
Eu olhei em volta e o bando de babuínos parecia apenas se divertir com aquilo. Gritavam, riam, gozavam. Aliás, chamá-los de babuínos seria uma ofensa cruel demais. Pros babuínos.
Decidi me meter. Afinal, é começo de ano, as coisas ainda estão voltando ao seu curso normal na diretoria e o máximo que eu ganharia seria uma advertência.
- Ei, palhaços! - eu gritei, adentrando o banheiro.
Os garotos me olharam imediatamente, mas continuaram afogando Charles.
- Você de novo, pirralho? - o mais forte perguntou. 
Era o mesmo palhaço que me parou no corredor há alguns dias. O da espinha no nariz. Vou chamá-lo de valentão espinhento.
- Larguem ele! - mandei. - Que direito vocês têm de humilhar alguém desse jeito?
Os garotos se olharam e riram entre si. A "plateia" assistia a tudo atenta. "O que esse menino está fazendo?" eles deviam estar pensando.
Os rapazes, então, largaram Charles, que caiu sentado no chão frio de azulejo. 
- O trote acabou - o valentão espinhento avisou, me encarando.
E então o grupo de idiotas saiu do banheiro. E os babuínos que assistiam a tudo se dispersaram pelo corredor.
- Você está bem? - perguntei ao Charles, abaixando-me ao seu lado.
- Estou - ele disse. 
- Você não engoliu água demais?
- Talvez sim. Mas estou bem por saber que tenho um amigo como você.
E então eu chorei. E nos abraçamos. 
Brincadeira, eu não chorei e nem nos abraçamos. Só achei que tornaria a cena mais bonita na sua cabeça.
O que aconteceu é que nos levantamos, nos cumprimentamos e fomos para a sala de aula.
Quando cheguei em casa, contei tudo para o Pedro. Meu irmão do meio, você sabe. Ele disse que o que eu fiz foi arriscado, mas bonito. E ele nunca teria coragem de fazer aquilo.
- Pessoas como você são raras, Dudu - ele disse.
Depois entendi que "pessoas como eu" são pessoas que encaram qualquer coisa que seja preciso para manter os seus valores em primeiro lugar. O que sempre me pareceu certo, porque não faz muito sentido você defender alguma coisa teoricamente e quando ela acontecer na sua frente você ficar só olhando.
Espero que você seja assim, amigo. Espero que você não seja um bundão.
Não bundão no sentido de bunda grande!
Ah, você entendeu!


Abraços do Eduardo.

4 comentários:

  1. Gostei muito deste texto, principalmente o final

    parabéns...

    emersom roballo

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    1. Professor, muito obrigado! Agradeço do fundo do coração o fato de o senhor divulgar o blog sempre que pode, e de tantos elogios que me dá. Obrigado!

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  2. Cristian! Estou chegando no teu blog meio de carancho, da distante cidade de Caxias do Sul, por intermédio do professor Emerson, e mesmo sem ser convidado andei bisbilhotando os textos e gostei muito dos que já li. Com relação aos dois textos sobre Trote gostei da contextualização e desenvolvimento deles, até porque os trotes dos veteranos em relação aos novatos que, de brincadeira se transformaram em violência, o teu trote (parte2) foi direto ao cerne da questão: uma prática que precisa ser eliminada do contexto estudantil. Parabéns pela iniciativa. Estanislau Robalo.

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    1. Olá!!
      Muito obrigado, Estanislau. Fiquei muito muito contente com o teu comentário, com os teus elogios. Espero que continue lendo! Obrigado!

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