20 de fev de 2014

Trote.

Caro amigo...


Ontem, quando chegamos na sala de aula, tinha um garoto sentado no primeiro lugar da fileira do meio. Até que a aula começasse, todos que chegavam comentavam coisas do tipo "ele é novo aluno", "ele é um espião", "ele é um fantasma".

Aí a professora Sara chegou.
Ela é o tipo de mulher com quem você quer se casar quando crescer. É bonita, bem sucedida e muito inteligente.
- Ah! Este é o nosso novo colega, turma! - ela divulgou, apontando para o garoto. - Gostaria de vir até aqui e se apresentar? - ela perguntou.
O menino hesitou, afastou a mesa e levantou-se. Foi até a frente, ao lado da professora, um pouco encolhido e envergonhado, e disse:
- Meu nome é Charles. Tenho dez anos.
Alguns corresponderam o "oi" igualmente simpáticos, outros zoaram como um bando de babuínos, e outros não deram a mínima porque estavam preocupados conversando paralelamente. 
Eu virei para trás e comentei com Felipe:
- Ele tem cara de inteligente.
- Desde quando a inteligência de alguém se mede pela cara, Dudu? Einstein seria tachado de burro! 
- Blá, blá, blá.
O Felipe costuma me irritar facilmente, e eu nem sei por que é meu melhor amigo. Acho que é por isso mesmo, mas enfim, ele não é o assunto desta carta.
O Charles realmente parecia inteligente. Vai dizer que você não vê quando alguém é inteligente só pela cara dele? Minha mãe disse que o certo é "rosto" ou "face", e não "cara", mas dane-se.
No recreio, eu e Felipe decidimos ir até o Charles, que estava sentado sozinho em um banco, perto do jardim da escola.
- Você é inteligente? - o Felipe perguntou.
O garoto pensou, refletiu, repensou e rerefletiu. "Que tipo de pergunta é esta pra uma saudação?" ele deve ter pensado. Ou não. Sei lá.
- Não muito - respondeu.
- Está vendo, Eduardo?! - Felipe concluiu. 
O Charles, bem no fim, é bem divertido. Ele gosta de ler, e não curte muito escrever. Ele veio transferido de uma cidade bem longe, por causa do trabalho do pai dele. O recreio foi o suficiente para nos aproximarmos e ele perder a timidade com as minhas perguntas curiosas e as piadas sem noção do Felipe.
Quando o sinal bateu, eu fiquei alguns segundos no saguão bebendo água no bebedor - água ruim com gosto de cano de PVC - e subi um pouco depois dos meninos. No corredor, fui atacado por um cara esquisito que eu não me lembro de ter visto antes. Ele usava a camiseta que o oitavo ano confeccionou no início das aulas, então deduzi que ele era um dos veteranos. Ele era grande, em relação a mim e meus colegas, e parecia bravo, também.
- Escuta aqui, veadinho - ele me intimidou, interrompendo meu caminho.
- Você falou comigo? - perguntei.
- Não, com a sua avó, pirralho. Eu vi você conversando com o calouro no recreio. E aconselho você a ficar bem longe dele se não quiser levar o trote também.
- Desculpe, eu estava distraído com esta espinha no seu nariz. Você disse "trote"?
Eu acho que deixei o garoto mais bravo do que antes quando comentei sobre a espinha. Mas eu não podia perder aquele momento pra irritar ele. Pra começar, ele era feio que doía, e pra terminar, eu não sou o tipo de garoto que você pode intimidar no corredor. 
- Sem gracinhas, idiota. Está avisado - ele respondeu, saindo.
Eu passei o resto da aula pensando sobre aquilo. O que iam fazer com o Charles? Ele é um cara tão legal! E sim, ele é o tipo de garoto com que você pode intimidar no recreio. E de quebra você faz ele se mijar todo. 
No ano passado os veteranos fizeram um trote para dois novatos, também transferidos de outra escola. Eles levaram ovadas no meio do recreio, em público. Todo mundo riu muito, inclusive eu. Mas acho que eu não riria se fosse com o Charles.
O tal trote não foi hoje, então vou escrever sobre ele quando acontecer - se acontecer. Eu realmente espero que não seja nada sério. E eu espero poder fazer alguma coisa. 


Abraços do Eduardo.

2 comentários:

  1. Nossa, muito legal! Não saboia que tu escrevia, Cristian. Sério, muito legal mesmo, parabéns!
    Abraços!

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    1. Obrigado, Rafael! Desculpe a demora pra responder, é que eu não costumo ver os comentários. Mas obrigado mesmo! Continua lendo!

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