5 de fev de 2014

Bebê.

Caro amigo...


Era uma tranquila e relaxante manhã de quarta-feira quando a campainha tocou.

Minha mãe caminhou apressada em direção à porta da sala, onde eu estava bebendo meu leite achocolatado e assistindo desenhos animados calma e silenciosamente.
- Olá! - eu ouvi ela dizer. - Estava esperando por ele.
Imaginei que fosse o jornal do dia, ou algum enfeite novo para o jardim. Então me despreocupei e bebi mais um gole daquele delicioso leite com cinco colheres extras de achocolatado, os quais coloquei escondido.
Até que ouvi um choro. Um choro irritante de bebê.
- Dudu - minha mãe chamou. - Olhe quem veio passar a manhã conosco.
Oh, sim! Não era apenas um choro irritante de bebê como um irritante bebê inteiro! Daqueles que babam e fazem caca na própria cueca - o que chamam de fralda. Você deve estar pensando "mas você fazia isto até pouco tempo, Eduardo". Errado. Eu já nasci com 10 anos, pois não me lembro de fazer caca na própria cueca.
- O que essa coisa tá fazendo aqui, mãe?
- O nome dele é Otávio, Eduardo.
- Otávio otário.
- Isto é ciúmes, Eduardo?
- Não, mãe, é amor próprio.
Otávio era o meu primo mais novo, e me lembro da última vez que ele passou a manhã na minha casa. Ele sujou o tapete com papá de neném, puxou o rabo do nosso cachorro e jogou o controle remoto no vaso sanitário. O que metade da população chama de fofo, eu chamo de pequena peste humana. 
Minha mãe decidiu que deixaria a criatura sentada no tapete, assistindo desenho animado comigo, enquanto ela terminava de varrer o segundo andar. Você acha que eu pude recusar? Não pude.
Em cinco minutos Otávio já havia babado o suficiente para encher o oceano Pacífico e gritado o suficiente para quase estourar os meus tímpanos. 
Quando finalmente decidi reclamar para a minha mãe, ela trouxe um dos seus álbuns de fotografias. Como prometi para você em outra carta que eu sempre veria álbuns de fotografias quando minha mãe quisesse mostrá-los, eu decidi dar atenção.
- Está vendo este pequeno ser humano? - ela perguntou, apontando para a foto de um bebê.
- O Otávio me deixa surdo, não cego, mãe.
- O que você acha dele?
- Aparentemente irritante como todos os outros.
- Realmente, era irritante - ela riu. - Mas é você!
Não podia ser eu! Eu nasci com 10 anos!
- Eduardo - ela continuou -, todo mundo que você conhece já passou por esta fase em que o Otávio está passando. Inclusive você. 
- Conclua logo o sermão, mãe. To querendo assistir televisão.
- Esta fase é extremamente importante. É o primeiro contato do ser humano com as pessoas, as sensações, o mundo! - ela disse, pegando Otávio no colo.
Pensando por este lado, Otávio não parecia tão insuportável. Até que aquele rostinho era fofo mesmo. Eu nunca havia visto o meu priminho daquela forma: um pequeno ser humano recém chegado no mundo. Pois agora o seu jeito esquisito de ser era explicável. Você não se sente esquisito quando chega em lugares estranhos? Imagine só um bebê! 
Caro amigo, a partir daquele momento, decidi que seria mais paciente com o Otávio. Afinal, é nesta fase que eu posso ensiná-lo coisas legais, coisas que ele levaria para o resto da vida, certo? 
Usei o resto da manhã para ensiná-lo a montar legos (agora tenho um sucessor na construção civil com legos), pintar desenhos com giz de cera e fazer bolinhas com massa de modelar. 
Ah, também o ensinei a fazer carinho no cachorro e não puxar o rabo!


Abraços do Eduardo.

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